segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
Sonho Vermelho
Porém, enquanto eu acreditava segurar forte o suficiente a corda para que ele não fosse embora, um vento que surgiu do nada o arrancou da minha mão. Eu tentei, desesperado, pular e segurar o barbante, mas já era tarde demais. Não era mais o meu balão.
Durante algum tempo eu acompanhei com os olhos o caminho incerto que fazia. Cada segundo que passava, mais alto ele ficava e para mais longe ele ia. Vi o meu balão vermelho ir, aos poucos, embora. Eu o havia perdido.
Mas, quando eu já tentava segurar as primeiras lágrimas que se preparavam para descer, ele parou. Ficou preso no telhado de uma casa. Era minha chance de conseguir o meu balão de volta. Era. Pois no momento em que soltei da mão da minha mãe para correr atrás dele, uma nova rajada de vento soprou, e o empurrou fortemente contra o telhado irregular.
Corri para catar os restos do meu balão e não consegui mais segurar o choro que insistia em cair. Só achei alguns pedaços e o laço que havia na sua ponta. Era os pedaços mais vermelhos e o laço mais bonito do balão que voou mais alto. Mas ainda eram só pedaços. E pedaços não voam.
sábado, 27 de outubro de 2007
Com calça e sem causa
Se eu perguntar hoje, num shopping, quantas pessoas ali presentes são comunistas, garanto que serei ignorada ou tratado como "aquele louco que está gritando e incomodando os clientes". Mas, imaginando que o mundo é cor de rosa e que vivemos em uma sociedade na qual há o respeito mútuo, tenho certeza que encontraria 3 ou 4 (pseudo) seguidores de Marx. Eles diriam que o capitalismo é injusto e blá blá blá, o mesmo discurso de todo ativista de shopping. Porém, se eu os questionasse sobre quem foi O Che, não responderiam nada além de "um revolucionário cubano". Pessoal, a sombra com orelhas de Mickey é argentina.
A atitude da sociedade de consumo de vender uma ideologia séria como o comunismo, como se ela fosse um acessório, aliada à crescente acefalia juvenil (o efeito da Bomba de Hiroshima foi muito além do que a gente esperava), acabou criando monstros: rebeldes com calças (de marca) e sem causa. Que queiram ser discípulos de Lenin, eu entendo, ainda que prefira meu Adam Smith. Mas, pelo amor de Deus, pelo menos saibam o que é isso!
Fico imaginando como será no futuro. O que esses jovens explicarão aos seus filhos, quando não forem mais tão jovens assim (fisicamente, porque mentalmente talvez demore um pouco). "Filho, Che foi um revolucionário cubano. Siga-o!". Muito provavelmente essas pessoas não sabem nem onde está Cuba, o que dizer da Argentina, então. E a Rússia fica.... bem, não vem ao caso.
Na geração pós-Nagasaki, o destino do mundo parece estar mesmo nas mãos do capitalismo. E isso não porque o american way of life é o melhor sistema ou coisa do gênero, mas, sim, porque não há quem (me referindo, de fato, a uma pessoa) faça frente a ele. Isso porque, para tanto, é precioso questionamento e contestação, o que não é o forte dos dias de hoje.
O pensamento leva ao avanço e, quem sabe, com o avanço não se chegue na Utopia? Mas do jeito que as coisas vão, parece que ficaremos aqui pela Inglaterra durante algum (longo) tempo ainda.
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
Espelhos
Quando pequeno, esse momento parecia que nunca ia chegar. Os castelos impalpáveis eram sólidos como as pedras e eternos como as montanhas; os inimigos invisíveis eram mais preocupantes que aquilo o que os amigos vêem de mim e as princesas seqüestradas estavam muito mais próximas do que estavam as aflições do coração.
Mas, aos poucos, os castelos se desfizeram como pedras de areia e os inimigos e as princesas deram espaço à vergonha e ao desencanto. Foram ficando para trás, deixados para depois, até que se tornaram uma vaga memória nos olhos congelados de um homem esquecido.
A memória, porém, é eterna e os olhos são os espelhos da alma. Enquanto ainda houver nos olhos lembranças de uma infância passada, ela continuará viva. A quela criança que antes eu via, não cresceu. Os olhos não mentem. Os espelhos não mentem.
sábado, 21 de julho de 2007
Desabafo
Odeio escrever. Não, é sério: odeio escrever! Coisa mais chata... enjoada. Não tem a mínima graça para o escritor escrever, porque tudo o que acontece na história, ou seja lá no que for, ele já sabia antes, afinal, foi ele que criou aquilo tudo. Não há nenhuma novidade no ato de escrever.
O legal mesmo é ser leitor. Cada nova frase é uma idéia nova que, se o texto for bom, “nunca iríamos imaginar”. Não há nada de cobrança de fãs. Não há nada alfinetada de críticos. Como é difícil ter talento! O bom mesmo é ser inapto, digo, leitor.
Ok, estava (na maior parte) brincando. Até porque, não diria o contrário para não perder o público, mas, todos sabemos, escrever é um saco. Ainda mais se tem-se um prazo a ser cumprido ou uma data específica para entrar o texto (como ocorre com os malditos blogs). Mesmo assim, todos nós também sabemos, essa é uma ação muito prazerosa e recompensante, uma vez que, com ela, você consegue explanar suas idéias e, com sorte, convencer alguém de que elas estão certas.
Apesar de ser uma tarefa exaustiva, o ato de escrever possibilita a nós, pobres escritores, a chances de mostrar o mundo segundo a ótica daqueles que nele vivem, podendo assim, criticá-lo enaltece-lo, ou, até mesmo, mudá-lo.
Sem “falsa-arrogância” e brincadeiras agora, escrever é uma das melhores coisas que existem e abre muitos caminhos, todos eles, infinitos. A única coisa que torna a escrita chata é a falta inspiração. Coisa que não tenho hoje.
sábado, 14 de julho de 2007
Falsa crueldade
“Detesto gente falsa!”
Perco os dedos (da mão e do pé) quando tento contar quantas pessoas já não ouvi dizendo essa célebre e tão politicamente correta frase. Eu mesmo já disse isso, pelo menos, muitas vezes! Mas, venhamos e convenhamos, o que seria de nós sem a falsidade?
Imaginem se nós soubéssemos tudo o que os outros pensam a nosso respeito ou, pior, nós disséssemos ao nosso querido próximo tudo o que pensamos dele. Seria o caos! Não existiria santo calmo em uma situação dessas. Para solucionar e evitar tais problemas, o ser humano criou, então, um de seus mais brilhantes recursos: a falsidade (só perdendo para a falsa modéstia e para desculpa). Com esse incrível subterfúgio, nos tornamos hábeis a evitar ocasiões constrangedoras e a não magoar os sentimentos alheios (pelo menos, não diretamente).
Porém, se isso fosse tudo, não haveria motivo para eu dedicar tanto tempo à esse assunto (embora eu esteja de férias e não tenha muito mais o que fazer). A falsidade, além de evitar momentos chatos, concede ao ser humano o incrível poder de criar momentos agradáveis. É o caso de, por exemplo, aquele amável texto mal escrito do seu amigo ou aquele desenho de uma bicicleta que lembra muito um polvo, no qual, se fosse dita a verdade, a pessoa se magoaria (e provavelmente te odiaria). Contudo, se usada a falsidade de maneira correta, é fácil não magoar o coleguinha e, de quebra, ainda garantir a felicidade dele (por ter um desenho bonito) e sua (quando rir do desenho dele depois).
Então, mais importante que super força, controle do tempo ou habilidade de voar, é a falsidade, que, por tudo isso, garante ao ser humano o super poder de viver em sociedade, uma das atividades mais árduas já existentes. A pessoa falsa não é, portanto, uma pessoa ruim, é só mal compreendida. Afinal, existe bem maior do que esperar para rir de alguém quando este vai embora, ao invés de rir dele na hora?